Negócios na China

Registro de marca na China: o guia passo a passo para empresas brasileiras

Seu produto sai da linha de montagem na China com o logotipo de sempre — só que, no papel, esse nome pertence há tempos a um desconhecido. Para quem vive de usurpar marcas alheias, isso não é uma falha: é um modelo de negócio.


Sergey Konon
  • Sergey Konon
  • Advogado Tributário e Societário
Out 01, 2026
~ 12 min de leitura

A China segue como principal parque fabril do planeta e um dos maiores mercados consumidores do mundo — além de ser, há anos, o maior parceiro comercial do Brasil. Mas o escudo jurídico sobre a sua marca só é acionado depois que você conclui o procedimento oficial. Pule essa etapa e o direito exclusivo vai para quem depositou primeiro: o seu logotipo vira ativo de terceiros e o seu próprio produto passa a ser, tecnicamente, a falsificação. A seguir, o caminho prático da ideia ao certificado: como funciona a proteção de marca junto à Administração Nacional de Propriedade Intelectual da China (CNIPA), onde os requerentes mais tropeçam e quanto custa o percurso inteiro.

Por que registrar marca na China e quem precisa disso

Garantir os direitos sobre um sinal na China não é preencher mais um formulário burocrático. É controle real sobre seus canais de distribuição, sobre a imagem da empresa e sobre o direito básico de vender com o próprio nome.

Registro de marca na China: o guia passo a passo para empresas brasileiras

O risco de operar com a marca não registrada

Enquanto o sinal juridicamente não é de ninguém, qualquer um pode chegar antes: a fábrica que produz para você, um distribuidor ou um completo desconhecido. A lei chinesa fica do lado de quem depositou primeiro, e para você isso vira uma sequência de dores de cabeça:

  • um lote com o logotipo “agora de outra pessoa” corre o risco de ficar retido na aduana na exportação;
  • o novo titular concentra em si a venda daquele produto dentro do país;
  • ele também pode registrar o sinal em outros países e fechar suas rotas de exportação;
  • produtos contrafeitos com a sua própria marca podem entrar no mercado brasileiro.

O roteiro é dolorosamente comum: o fabricante repara na marca que vende bem do cliente, registra em nome próprio sem alarde e depois aperta as condições da negociação ou simplesmente empurra o dono original para fora. Desfazer esse nó depois é demorado, caro e nem sempre dá certo.

Quando o registro é urgente e quando pode esperar

Não vale adiar se a produção está na China e a venda sai com marca própria, seja para o mercado chinês, seja para fora. Na direção oposta: se o produto não leva nenhum sinal seu e não há planos além do mercado interno, o registro pode ficar para depois — mas com o risco no radar.

Regra prática. Coloca a sua marca no produto e depende da China nem que seja como fábrica? Deposite o pedido antes de começar os embarques, não depois do primeiro conflito.

O princípio “first to file”: a regra central do sistema chinês

É aqui que mora a divergência decisiva em relação à lógica a que a maioria está acostumada. Na China a prioridade não é definida por há quanto tempo a marca é usada, e sim pela data do depósito: quem chegar primeiro ao CNIPA fica com o direito. Reconhecimento de mercado, anos de vendas, histórico da marca — nada disso, por si só, dá vantagem.

Registro de marca na China: o guia passo a passo para empresas brasileiras

Daí que o maior perigo seja a demora. Enquanto você pondera se vale registrar, outra pessoa deposita, e a lei ficará com ela. É preciso jogar na frente.

Prioridade unionista pela Convenção de Paris

A regra tem uma válvula de escape legal. Quando o primeiro pedido é depositado em um país signatário da Convenção de Paris (Brasil e China aderiram há muito tempo), abre-se uma janela de seis meses para pedir que a data do primeiro depósito seja reconhecida como prioridade na China.

Um exemplo concreto: em julho os documentos vão para o INPI; em setembro um desconhecido crava um sinal parecido na China; e você só deposita na China em outubro. Invocando a prioridade, você puxa a sua data chinesa de volta para julho — e a marca continua sendo sua. Para acionar essa alavanca, junta-se ao pedido uma reivindicação de prioridade específica, acompanhada dos documentos que comprovam o primeiro depósito.

Que sinais podem ser registrados

A China protege sinais de vários tipos, com requisitos próprios — e, para marcas estrangeiras, há ainda um detalhe linguístico.

Tipos de marca e seus requisitos

É possível registrar:

  • a marca nominativa — um nome, um slogan ou uma combinação de letras e números;
  • a marca figurativa — logotipo, símbolo gráfico ou desenho;
  • a marca mista — texto somado a elemento gráfico;
  • a marca tridimensional — a forma reconhecível do produto ou da embalagem;
  • a marca sonora — uma melodia ou sinal sonoro característico.

O critério decisivo é a distintividade: a marca precisa separar o seu produto dos vizinhos de prateleira. Aromas e odores não são registráveis na China, e parte das categorias está fechada ao registro. Antes do depósito, o sinal é checado na base do CNIPA — a ideia é não esbarrar em uma marca idêntica ou semelhante a ponto de gerar confusão.

A marca em caracteres chineses

Aqui está a armadilha para estrangeiros: proteger a versão em alfabeto latino não cobre automaticamente a versão em ideogramas. Um terceiro pode tomar para si a versão “chinesa” da sua marca. A adaptação segue três caminhos: pelo significado (Apple virou 苹果, “maçã”), pelo som (McDonald’s — 麦当劳, Siemens — 西门子, Audi — 奥迪) ou combinando os dois (Coca-Cola — 可口可乐, que soa como “saboroso e alegre”).

Casos exemplares não faltam. A Ralph Lauren foi por um tempo chamada de “cavalo de três pernas” na China, porque o público transliterou o nome por conta própria. E a disputa da New Balance pela versão em ideogramas 新百伦, registrada antes por um terceiro, custou à empresa uma indenização milionária. A moral é evidente: o nome chinês da marca é melhor ser criado e registrado por você mesmo, em vez de ficar por conta do mercado ou da concorrência.

“Ideograma não é alfabeto, onde o sinal passa do latino para o cirílico praticamente sem distorção. O nome chinês de uma marca precisa ser projetado de forma consciente e registrado em conjunto com o principal — caso contrário, você deixa uma brecha para quem quiser depositá-lo no seu lugar”, destacam especialistas em proteção de propriedade intelectual na China.

Classes e subclasses de Nice: como não errar na especificação

A base é a mesma Classificação de Nice usada pelo INPI, mas com um ajuste chinês: as classes se dividem em subclasses. No pedido são indicados classe, subclasse e a redação exata de cada item. Um erro nessa etapa corrói diretamente a proteção — a marca pode acabar protegida para algo diferente do que você de fato comercializa.

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Pense em uma rede de pousadas com café da manhã: usa a classe 43 (“serviços de fornecimento de alimentação e hospedagem temporária”), escolhe a subclasse pertinente e insere o item específico — por exemplo, “aluguel de acomodações”. Sem a subclasse correta, um serviço formalmente parecido fica facilmente descoberto.

Atenção. O erro mais frequente e mais caro entre requerentes estrangeiros é uma lista de produtos e serviços montada sem cuidado. Confira as subclasses com o agente antes do depósito, e não remendando falhas quando o indeferimento já está na mão.

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Dois caminhos: via nacional e Protocolo de Madri

Dá para garantir a marca na China por uma de duas trajetórias — mandar o pacote direto ao CNIPA ou estender à China um registro internacional que você já mantém, pelo mecanismo do Protocolo de Madri. Em qualquer das opções, quem não tem estabelecimento no país conduz o processo pelas mãos de um agente de marcas licenciado.

Registro de marca na China: o guia passo a passo para empresas brasileiras
CritérioVia nacional (CNIPA)Protocolo de Madri (via OMPI)
O que é preciso na largadaBasta a intenção de assegurar a marca na ChinaPedido depositado ou registro de base no país de origem
Onde se depositaDireto no CNIPA, por meio de agenteDo seu país, indicando a China entre os territórios
Flexibilidade nas subclassesMaior: a lista é ajustada às regras locaisMais restrita — vai a reboque do pedido-base
Quando compensa maisQuando o alvo se limita ao mercado chinêsQuando a entrada é em vários países ao mesmo tempo
CustoMais transparente em jurisdição únicaMais vantajoso quando um pedido cobre um conjunto de países

A via nacional é preferível quando a China é o alvo principal ou único. O Protocolo de Madri mostra seu valor quando você entra em vários mercados de uma vez e quer administrar a carteira a partir de um só ponto.

Passo a passo do registro de marca na China

Olhando de cima, o caminho se divide em três trechos: busca do sinal, preparo e depósito dos documentos, exame com emissão do certificado. Vamos a cada um.

Passo 1. Busca na base do CNIPA

Começa-se pela pesquisa no registro do CNIPA — a meta é descartar de antemão marcas idênticas e semelhantes a ponto de confundir. A base chinesa é colossal, então obstáculos aparecem com frequência. Encontrou impedimento? O sinal é lapidado: muda-se um detalhe, reforça-se o elemento distintivo, ajusta-se a especificação. Essa busca leva alguns dias úteis, mas preserva o que há de mais valioso — o orçamento e o tempo que, do contrário, escorreriam por um indeferimento.

Passo 2. Preparo dos documentos e depósito do pedido

O pacote para o CNIPA costuma reunir:

  • o requerimento, redigido em chinês;
  • a imagem da marca — nítida e em boa resolução;
  • a lista de produtos e serviços vinculada às subclasses;
  • documentos do requerente (certidão de registro da empresa ou cópia do passaporte), com tradução;
  • procuração ao representante;
  • material referente ao primeiro depósito, se houver reivindicação de prioridade unionista.

O requerente estrangeiro chega ao órgão exclusivamente por meio de um agente licenciado, e toda a documentação é apresentada em chinês — sem um falante nativo e um representante competente, o procedimento não se sustenta.

Passo 3. Exame, publicação e obtenção do certificado

Em seguida o CNIPA dispara duas verificações: o exame formal (integridade e correção do pacote) e o exame substantivo (distintividade somada a eventuais colisões com marcas de terceiros). Sem barreiras, o sinal é publicado no boletim oficial, com três meses para oposição de terceiros. Decisão desfavorável, total ou parcial, pode ser objeto de recurso. Não havendo oposição, o requerente recebe o certificado em formato eletrônico: ele fixa o direito exclusivo por uma década e é renovável em seguida.

Quanto custa e quanto demora

O número final se compõe da quantidade de classes e de itens na especificação, além do escopo do acompanhamento jurídico. Os prazos se dividem entre comum e acelerado.

Registro de marca na China: o guia passo a passo para empresas brasileiras
ItemReferência
Taxa oficial do CNIPA270 CNY por classe (pedido eletrônico, até 10 itens); 300 CNY em papel — cerca de US$ 38–42
Itens adicionaisacréscimo de 27–30 CNY por item além dos 10 incluídos
Honorários do agentea partir de ~US$ 500, conforme a complexidade
Custo total por classena prática, algo entre ~US$ 180 e 300 quando somados taxa e serviço básico
Prazo de registro (padrão)cerca de 12–18 meses
Procedimento aceleradoaproximadamente 6–9 meses, com custo adicional
Prazo de proteção10 anos, com direito a renovação

Importante. Os números acima são referência de fontes abertas, não uma tabela oficial. O valor da taxa está atrelado à especificação de produtos, então confirme um orçamento atualizado (com eventuais custos extras em caso de exigências do órgão) com o agente antes do depósito.

Depois do registro: registro aduaneiro e defesa da marca

Obter o certificado não encerra o assunto — abre a defesa. Para interceptar contrafação na fronteira, a marca é inscrita no registro aduaneiro chinês: com base nele, a alfândega pode reter lotes que ostentem o seu sinal, inclusive os que saem para exportação. Na prática, o sistema exige um registro duplo — um no órgão de marcas e outro na aduana. Ao mesmo tempo, é preciso vigiar a marca e efetivamente usá-la: três anos consecutivos de inatividade abrem a qualquer interessado o caminho da caducidade por desuso, e o ônus de comprovar o uso recai sobre o titular.

Registro de marca na China: o guia passo a passo para empresas brasileiras

Vale ter em mente também a reforma de 2019: as autoridades chinesas criaram barreiras explícitas ao registro de má-fé, ampliando as hipóteses tanto de oposição quanto de contestação de marcas “sequestradas”. Isso facilitou sensivelmente a vida dos titulares de boa-fé — mas o princípio de “quem deposita primeiro leva” continua firme.

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Taiwan, Macau e Hong Kong: por que é preciso registro separado

A proteção fixada na China continental simplesmente não alcança Taiwan, Macau e Hong Kong — cada um desses territórios se apoia em um conjunto próprio de normas e mantém o próprio registro. Ou seja: blindar a marca em todas as frentes só sai de um jeito — depositando um pedido autônomo em cada uma dessas jurisdições.

Em Hong Kong, por exemplo, o pedido vai ao Departamento de Propriedade Intelectual local e obedece a regulamento próprio, com prazos próprios. Uma empresa que mantém estrutura em Hong Kong ou que canaliza operações de comércio exterior pela cidade faz bem em fechar as duas zonas de uma vez — continental e hongkonguesa — para não deixar brechas na defesa.

O sistema chinês joga a favor dos ágeis: a marca fica com quem depositou primeiro, não com quem a usou por mais tempo. Para que a proteção realmente funcione, três condições precisam convergir — um nome chinês bem pensado, uma especificação correta com as subclasses certas e o apoio de um agente licenciado. Depois é o trilho conhecido: busca na base do CNIPA, depósito, exame e um certificado de dez anos, seguido do registro aduaneiro e do controle de uso. Adiar aqui quase sempre custa mais do que o próprio procedimento — então deposite com antecedência, antes que outra pessoa o faça.

Sergey Konon, especialista em propriedade intelectual

Perguntas frequentes

1. Preciso ser residente na China para registrar uma marca?

Não. Tanto empresa estrangeira quanto pessoa física podem depositar, mas rigorosamente por meio de um agente de marcas licenciado na China — o requerente estrangeiro não se dirige diretamente ao CNIPA.

2. A versão em alfabeto latino protege a grafia em ideogramas?

Não; juridicamente são dois sinais independentes. A versão em caracteres chineses é desenvolvida e registrada à parte, ou corre o risco de ser tomada por um terceiro.

3. O que acontece se eu não usar a marca registrada?

Três anos consecutivos sem uso dão a qualquer interessado o direito de pedir a caducidade por desuso. Por isso é importante usar o sinal de fato e guardar comprovação disso — o ônus da prova é do titular.

4. Por quanto tempo vale o registro e é possível renovar?

O certificado mantém a validade por 10 anos a contar do registro e depois é renovado por novos períodos decenais, mediante pedido tempestivo e pagamento da taxa.

5. O registro na China continental basta para me proteger em Hong Kong?

Não. Hong Kong, Macau e Taiwan são jurisdições apartadas, e em cada uma se deposita um pedido separado no registro correspondente.

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